Identidades digitais avançam na aviação e adoção em massa pode ocorrer em até dois anos
Identidades digitais e biometria avançam na aviação, com testes virando operações e adoção em massa prevista para os próximos anos.

As identidades digitais e a biometria deixaram de ser apenas projetos-piloto e começam a entrar em operação em diferentes partes do mundo, impulsionadas por iniciativas conjuntas entre companhias aéreas, aeroportos, governos e empresas de tecnologia.
Segundo especialistas ouvidos pelo PhocusWire, a infraestrutura tecnológica necessária para viabilizar uma jornada de viagem totalmente digital já está praticamente pronta. O desafio agora é garantir a interoperabilidade entre países, além de ampliar o apoio regulatório dos governos para que as credenciais digitais possam ser reconhecidas internacionalmente.
"Estamos muito próximos de ver essa adoção em massa acontecer dentro de um ou dois anos", afirmou Younkyung Kim, gerente sênior de experiência do cliente da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), ao destacar o crescente engajamento de companhias aéreas, aeroportos, governos e fornecedores de carteiras digitais.
Tecnologia deixa de ser o principal desafio
Tanto a IATA quanto a Amadeus concordam que a tecnologia deixou de ser o maior obstáculo para a implementação das identidades digitais na aviação. Agora, o foco está na integração entre diferentes sistemas e países.
"A tecnologia já existe. Estamos em uma curva de maturidade da implementação geral da biometria e da identidade digital no nível governamental", disse Alessandro Minucci, responsável pelas iniciativas de Seamless Travel da Amadeus.
Diversos governos já avançam na criação de estruturas oficiais para identidade digital, como a Carteira Europeia de Identidade Digital (EUDI Wallet) e credenciais digitais emitidas por países como China, Índia e Brasil.
Segundo Minucci, o setor chegou ao que ele define como "última milha" da maturidade das identidades digitais, graças à combinação entre credenciais emitidas pelos governos e verificação biométrica. O desafio restante é permitir que esses sistemas conversem entre si em viagens internacionais.
Na prática, isso já começa a acontecer. A Amadeus cita iniciativas como:
processamento migratório via celular em Curaçao;
corredores biométricos sem contato na Indonésia;
jornada biométrica de passageiros no Aeroporto de Manchester;
terminal biométrico da MSC Cruises em Miami.
Segundo a empresa, esses projetos demonstram que a identidade digital ponta a ponta deixou de ser experimental e já é operacionalmente viável.
Projetos-piloto dão lugar às operações
Outro avanço importante foi a recente prova de conceito do programa Contactless Travel, da IATA, que reuniu companhias aéreas, aeroportos e seis provedores de carteiras digitais — incluindo Google, Apple, NEC, SITA, Idemia e a própria carteira digital da IATA.
O objetivo foi demonstrar como credenciais digitais podem acompanhar toda a jornada do passageiro, em vez de permanecerem restritas a plataformas isoladas.
O projeto também avaliou como agências de viagens online, como a Trip.com, poderiam compartilhar informações de identidade verificadas durante o processo de reserva.
"No geral, o grupo avançou muito rápido e muito longe. Acho que foi extremamente positivo, no sentido de que todos estão prontos para participar e oferecer soluções para apoiar essa visão", afirmou Gabriel Marquie, chefe de identidade digital e gestão de acessos da IATA.
Governos serão decisivos para a expansão
Apesar dos avanços tecnológicos, IATA, SITA e Amadeus chegaram à mesma conclusão: o próximo passo depende principalmente dos governos.
Nos próximos três anos, a prioridade da IATA será trabalhar diretamente com autoridades para incentivar a adoção de credenciais digitais interoperáveis internacionalmente.
O consenso entre as organizações é que o próximo estágio consiste em garantir que governos, órgãos de fronteira e demais participantes da cadeia do turismo reconheçam e confiem nas identidades digitais em viagens internacionais.
Para a SITA, construir confiança nas integrações internacionais será essencial.
"A identidade digital é tão forte quanto a confiança que existe em torno dela. Ela precisa funcionar entre países, entre sistemas e entre instituições de forma segura, verificável e prática para operações reais", afirmou Stephen Challis, responsável pelo fluxo de passageiros da SITA Airports.
Europa evidencia desafios da implementação
As dificuldades enfrentadas pela Europa na implantação do sistema Entry/Exit System (EES) demonstram que a transformação digital envolve mais do que tecnologia.
O projeto sofreu atrasos em razão de preocupações relacionadas ao tempo de processamento de passageiros e à preparação dos aeroportos.
Passageiros já demonstram interesse
Enquanto governos avançam nas regulamentações, os passageiros parecem cada vez mais confortáveis com a identidade digital.
Segundo a IATA, a adoção tende a ser facilitada pelo uso de carteiras digitais já presentes nos smartphones, onde usuários armazenam cartões de pagamento, programas de fidelidade e bilhetes eletrônicos.
Pesquisas globais da entidade apontam que cerca de 80% dos viajantes gostariam de utilizar o smartphone para gerenciar mais documentos de viagem, enquanto entre os passageiros mais jovens esse percentual se aproxima de 90%.


