O que o seu roadmap não consegue planejar
Serendipidade não é sorte: é método. Entenda por que o que o seu roadmap não planeja pode ser exatamente o que vai definir o próximo ciclo.

Toda empresa de tecnologia tem um roadmap. Rabiscado ou formalizado. A maioria acredita que é lá que mora a inovação: no que está priorizado, estimado, e alocado para o próximo trimestre.
Arrisco a dizer que não é lá.
Grandes viradas em produtos e mercados, não incremento mas mudança real de comportamento e de modelo, raramente nasceram de uma sala de reunião. Nasceram de colisões. De pessoas que estavam resolvendo um problema e tropeçaram em outro mais relevante. De conversas que não estavam na agenda.
Isso tem nome: serendipidade. Já escrevi sobre o termo antes e confesso que sigo acreditando nele com mais convicção a cada ciclo que passa.
O que serendipidade realmente significa
O termo vem de um conto persa sobre os Três Príncipes de Serendip, nome antigo do Sri Lanka, que sempre faziam descobertas afortunadas graças à perspicácia. Horace Walpole cunhou a palavra em inglês em 1754, inspirado nessa história.
O ponto central que muita gente ignora: serendipidade não é pura sorte. É a intersecção entre acaso e preparo. Pasteur capturou isso melhor do que ninguém: "o acaso favorece a mente preparada."
A história comprova. A penicilina surgiu quando Alexander Fleming voltou de férias e encontrou um fungo contaminando sua placa de cultura bacteriana. Qualquer outro pesquisador teria descartado. Ele reconheceu o que estava vendo. O Post-it nasceu de um adesivo fraco que a 3M não sabia o que fazer. O micro-ondas foi descoberto quando um engenheiro da Raytheon percebeu que as ondas de radar derreteram a barra de chocolate no seu bolso. A vulcanização da borracha aconteceu quando Charles Goodyear derrubou acidentalmente uma mistura de borracha e enxofre em um fogão quente.
Em todos esses casos, o acidente estava disponível para qualquer um. O que diferenciou foi o preparo para reconhecer o valor do que havia aparecido.
Na prática, serendipidade tem três ingredientes:
Exposição. Você precisa estar em movimento, fazendo coisas, conversando com pessoas fora da sua bolha.
Atenção. Notar o que é anômalo, o que não deveria estar ali.
Conexão. Ter conhecimento suficiente para entender o valor do que você encontrou.
Em 2022, escrevi para a INMA sobre cultura de experimentação e defendi que dar às equipes problemas para resolver, não pressupostos para validar, é o que separa organizações que inovam das que apenas operam. A lógica se conecta diretamente aqui: roadmap resolve o conhecido. Serendipidade abre o desconhecido. Os dois precisam coexistir.



