UMA NOVA DINÂMICA NA GBTA, IMPULSIONADA POR IA
Como previsto, grande parte das sessões e conteúdo da GBTA tratava sobre IA. Mas a grande diferença comparando edições passadas com a de 2026 é que agora IA aparece na prática: nos produtos, nas políticas de viagens, no papel do travel manager e, inclusive, na rotina do viajante. NDC? Praticamente sumiu. Não que seja um tema totalmente endereçado, mas IA foi o tema quente dessa edição.
Cobertura e análise: Alexandre Cordeiro
UMA GBTA COM BASE TECNOLÓGICA E PRATICAMENTE SEM NDC
Por Alexandre Cordeiro, direto de Chicago
Não era possível imaginar que NDC seria um tema quase não mencionado em plena GBTA? São mais de dez anos de NDC em discussão, ainda com incertezas, num roteiro parecido com o que a IA vive agora. Aparentemente, ouvindo os corredores da GBTA, NDC parece estar em curso: não totalmente implementado, mas em um trilho. Ainda que a passos largos e demorados, virou realidade operacional. Era justo que desse lugar a outro assunto relevante. Bem-vinda, IA. Ou não tão bem-vinda assim, pelas incertezas e pelo desalinhamento entre disponibilidade da IA e planejamento e preparo das empresas para isso.
IA nos corredores. IA nas sessões educacionais. IA no almoço. IA no happy hour. IA. O que ouvi de executivos, travel managers e founders, porém, ficou longe do deslumbre: usamos IA, mas há impactos que ainda estamos sentindo. A percepção se repetiu com variações e o mesmo fundo: este é um segmento que busca controle, gestão, segurança e previsibilidade, e a IA ainda carrega incerteza sobre seus desdobramentos. O desconforto parte da distância entre o que ela promete e o que um programa de viagens pode assinar embaixo ao mesmo tempo que garante a governança demandada e inerente à prática de viagens corporativas (ou viagens a trabalho, traduzindo o termo "insider").
Durante os dias, muitos lançamentos de produtos que, de fato, estavam disponíveis. Foi menos powerpoint e mais produto pronto. Pesquisa conversacional, análises, automações, agentes conectados. Saiu do campo do planejamento, talvez impulsionado também pela facilidade que a IA permite lançar produtos.
Parte dessa novidade, porém, remete ao passado. Um conceito antigo que voltou de roupa nova. Open booking. Por anos, foi o nome da reserva feita fora do canal preferencial da empresa: o viajante comprava direto no site da aérea ou numa OTA, e o programa corria atrás do dado, do duty of care e do gasto perdido. Antes, era a reserva fora do canal preferencial; hoje, é a IA, que além de ser outro canal, também opera fora da política. O desafio de inovação é o mesmo de dez anos atrás. O que mudou foi o ciclo de transformação, hoje brutalmente mais curto. Como fica esse segmento? É a pergunta que atravessa as próximas páginas.
A resposta, que não é objetiva e ainda difusa, vem em quatro movimentos: o que saiu do hype e entrou na prática, e o que ainda é parede de stand; por que a política estática não sobrevive ao viajante que já opera com IA própria; como o Travel Manager e suas empresas absorvem a IA e a tornam parte do processo, exatamente a questão que levei ao palco do GBTA Business Travel Forum São Paulo em junho e que deu origem ao playbook Do Hype ao Hands-On; e por que o Brasil, depois de décadas visitando a GBTA como a meca da novidade, voltou desta edição com mais a ensinar do que a aprender.
Este material existe porque Panrotas e Mobility tornaram possível a ida do Travel Tech Hub a Chicago.

DO HYPE AO HANDS-ON
A IA dominou os corredores e palcos da GBTA. O fato novo é sua disponibilidade em produtos, processos e lançamentos.
Foto: Travel Tech Hub
O CICLO DE DESENVOLVIMENTO E ENTREGA ENCURTOU.
O que demorava anos, passou a ser possível em meses ou semanas. Os lançamentos da GBTA 2026 são o retrato disso: IA embutida no fluxo de trabalho e, mais que tudo, disponível.
Em uma palestra do TTH no GBTA Business Travel Forum São Paulo, em junho, e que deu origem ao playbook "Do Hype ao Hands-On", abordou-se o ritmo da mudança em três caixas: o que era ciclo de anos virou ciclo de meses e hoje roda em semanas, às vezes dias. A Anthropic, dona do Claude, entregou 74 lançamentos em 52 dias, cerca de 1,4 por dia útil. Uma função pode ficar obsoleta enquanto ainda dá lucro, porque o lucro retrata o caminho já percorrido. Quanto antes se enxerga o ciclo, mais cedo se começa a mover. Chicago confirmou a tese dois meses depois: o mercado que discutia IA como futuro e dúvida, agora vê o resultado e pode "apertar botões reais".
Anos
Era assim: ciclos longos, roadmap medido em versões anuais
Meses
Virou assim: releases trimestrais viraram o normal
Semanas, às vezes dias
É assim hoje: função nova chega antes de a anterior ser absorvida
- 74
- lançamentos da Anthropic, dona do Claude, num único ciclo
- 52
- dias para despachar todos eles
- 1,4
- lançamentos por dia útil, em média
Fonte: palestra "IA em gestão de viagens: do Hype ao Hands-On", GBTA Business Travel Forum São Paulo, jun/2026; The Product Compass
A lista de lançamentos foi extensa: a FCM Travel apresentou reserva conversacional dentro do FCM Booking, filtrada por política, perfil e histórico do viajante, operando primeiro dentro de Teams e Slack e com expansão prevista, via MCP, para ChatGPT, Claude e Gemini. A Accelya lançou o SPRK Assist, cobrindo 37 casos de uso de servicing NDC nos quais o agente descreve o resultado desejado em linguagem natural e o sistema localiza a reserva, valida condições contratuais e calcula tarifas. A TripGain anunciou seu MCP server. A Direct Travel remontou o Avenir como arquitetura multi-agente sobre a Spotnana. A Cerebri apresentou agentes de despesas com a Moderna como primeiro cliente nomeado. Pesquisa conversacional, NDC, agentes: exatamente o pacote que as notas de qualquer bom observador previam, agora com data de disponibilidade.
Lançamentos e anúncios: GBTA 2026
| Empresa | Lançamento |
|---|---|
| FCM | Booking conversacional, dentro de Teams e Slack, com expansão via MCP |
| Accelya | SPRK Assist, 37 casos de uso de servicing NDC, com a BCD como parceira |
| TripGain | MCP server |
| Direct Travel | Avenir remontado como arquitetura multi-agente sobre a Spotnana |
| Cerebri | Agentes de T&E, com a Moderna como primeiro cliente nomeado |
| Emburse | Parcerias com Cvent e Direct Travel |
| Conferma | Benchmark global de performance de cartão virtual |
Fonte: press releases distribuídos na GBTA 2026
Em praticamente todos os lançamentos, o humano, Travel Manager em grande parte, permanece como instância final por desenho de produto, não por limitação técnica. No SPRK Assist, o agente prepara e o humano confirma. No FCM Booking, a política filtra antes e o consultor segue no circuito. "Não construímos o ecossistema tecnológico da FCM para substituir o julgamento dos nossos consultores. Nós o construímos para tirar o trabalho rotineiro", resumiu John Morhous, Chief Experience Officer da FCM. Não é acaso nem modéstia: a tentativa de substituição completa de times humanos por IA já se provou malsucedida onde foi tentada, pela qualidade da entrega e pelos custos, que prometiam eficiência e entregaram retrabalho. O mercado aprendeu, e o desenho dos produtos de 2026 carrega essa cicatriz.
É a mesma conclusão a que o debate com o título mais polêmico da convenção chegou por outro caminho. Na sessão "NDC Is Dead: Long Live King AI", o telão abriu provocando: "NDC has been 'the future of distribution' for over a decade. AI got there in 18 months." No meio do caminho, a sessão confrontou a promessa da NDC com a entrega: conteúdo rico e tarifas de marca travaram na economia dos GDS, a personalização no momento da busca segue irregular e, como resumiu o próprio telão, cada companhia implementou a NDC de um jeito, e o padrão nunca padronizou de verdade. Quarenta e cinco minutos depois, o slide final desmontava a própria provocação: coexistência, não cage match. O desfecho, escrito na tela: "AI on top of NDC, not instead of it". A IA como camada de interface e decisão; NDC e GDS seguem como encanamento.
“NDC has been ‘the future of distribution’ for over a decade. AI got there in 18 months.”
“A NDC foi ‘o futuro da distribuição’ por mais de uma década. A IA chegou lá em 18 meses.”
MARKETING POWERED BY IA
Stands sem IA nas paredes era praticamente impossível de se ver. Regra do Marketing deve ser, encaixe IA aonde for preciso, mas encaixe.
Bastava caminhar pelos corredores da expo com atenção: se um stand não tivesse "Powered by AI" nas paredes, provavelmente estava mais vazio que os vizinhos que tinham. A pressão que empurra o viajante a adotar IA é a mesma que empurra o product marketing a promovê-la. Não ter é desvantagem, ao menos na cabeça de quem assina a campanha.
Ainda assim, a pesquisa da própria GBTA com 169 travel managers da América do Norte e Europa media a temperatura real dos programas: 58% relatam pouco ou nenhum impacto da IA até agora. Apenas 2% falam em melhora dramática. E 38% dos buyers não sabem dizer se a própria TMC usa IA no atendimento. O interesse, esse sim, é quase unânime: 93% querem relatórios gerados por IA, 92% querem analytics preditivo, 89% querem gestão automatizada de disrupção. Uso baixo, desejo altíssimo: o clássico retrato de uma tecnologia entre o anúncio e a operação.
- 169
- travel managers respondentes
- 65%
- América do Norte35% Europa
- 59%
- programas globais26% multinacionais, 15% nacionais
- 35%
- com 5 mil viajantes ou mais32% abaixo de mil
Fonte: pesquisa GBTA "Innovation and the 'Perfect Trip'", 2026
| Nenhum impacto | 29% |
|---|---|
| Pouco impacto | 29% |
| Algum impacto | 30% |
| Impacto considerável | 10% |
| Melhora dramática | 2% |
58% relatam pouco ou nenhum impacto. Apenas 2% falam em melhora dramática.
Fonte: pesquisa GBTA "Innovation and the 'Perfect Trip'", 2026 · n=218
| Relatórios gerados por IA | 7% 93% |
|---|---|
| Analytics preditivo | 5% 92% |
| Gestão automatizada de disrupção | 7% 89% |
| Chatbot de política | 15% 88% |
| Recomendações de política | 5% 87% |
| Captura de recibos | 15% 87% |
Fonte: pesquisa GBTA "Innovation and the 'Perfect Trip'", GBTA Convention 2026
Vinicius Gonçalves, CMO da TourHouse, trouxe de uma sessão a síntese que ouviu de uma gestora de viagens de uma grande empresa: querer automatizar um processo com 30 sistemas envolvidos pode ser o "garbage in, garbage out".
Para Manuela Bernardes, Diretora Executiva da Flytour Business Travel e da Flytour Eventos, citando dados apresentados em sessão: infraestrutura, engenharia e marketing já usam IA em mais de 70% do dia a dia; em travel, menos de 30% dos travel managers a usam como parte obrigatória da rotina. "Em travel, ainda estamos caminhando."
A leitura do Travel Tech Hub: o fornecedor estampa IA porque sabe que o mercado a exige como prova de valor; porém o cliente ainda não a sente no programa dada a fase de implementação. Quem fechar esse circuito primeiro, provavelmente, terá uma grande vantagem competitiva.
PROGRAMAS DE VIAGENS DINÂMICOS
A política de viagens em PDF tende a deixar de ser um entregável relevante do Travel Manager. A pergunta de 2026 é se as regras que um dia fizeram sentido sobrevivem ao confronto com a realidade, e a IA é justamente a ferramenta que permite fazer esse confronto todos os dias, segundo a segundo, transação a transação.
A ADOÇÃO CHEGOU ANTES DA REGRA
O impacto imediato da inovação, quando vinga, é uma adoção rápida e que ela chega antes da legislação, da política e do desenho institucional. Foi o traço comum de todas as sessões educacionais: o viajante já usa IA. E não vai voltar.
Em mais de uma sessão educacional, travel managers relataram a mesma cena: viajantes usando IA para criar roteiros, comparar preços e, em número crescente, comprar. Os dados divulgados na semana deram o tamanho do fenômeno.
A Amadeus batizou de shadow AI: 62% dos viajantes corporativos americanos já usaram IA própria para planejar ou reservar fora dos canais aprovados, 20% fazem isso regularmente e só 9% dizem que nunca fariam.
A SAP Concur, ouvindo 3.300 viajantes em 21 mercados, chegou a 72% dispostos a usar ferramentas não sancionadas, com 85% dos CFOs preocupados e 73% considerando provável que IA já esteja sendo usada para falsificar despesas.
A Travelport mostrou o funil: 32% pesquisam com IA, 8% concluem a reserva por ela. Confiança para montar opções, 76%; para gastar em nome próprio, 44%. E 80% exigem ver o raciocínio da ferramenta antes de deixá-la agir.
- 76%
- 73%
- 44%
- Confiam na IA para montar opções
- Confiam para montar roteiros
- Confiam para gastar em seu nome
80% exigem ver o raciocínio antes de deixá-la agir
- 62%
- já usaram IA própria fora dos canais aprovados (Amadeus)
- 72%
- dispostos a usar ferramentas não sancionadas (SAP Concur)
- 32% x 8%
- pesquisam com IA x concluem a reserva por ela (Travelport)
Fonte: Travelport Traveler Confidence Survey; Amadeus Tailored Horizons; SAP Concur
O detalhe que liga o dado ao produto apareceu no media day: no release do booking conversacional da FCM, cada recomendação vem com o raciocínio anexado, mostrando por que cabe na política, por que bate com a rota usual do viajante e com o programa de fidelidade. "Conversational booking only works if travelers trust what they're being shown, and that trust comes from context, not just convenience", disse Jessica Dunderdale, Global Head of Product da FCM. É a resposta direta aos 80% que exigem ver o raciocínio antes de deixar a ferramenta agir.
IA é o novo Google, lembre-se (para os mais antigos, também é o pacote office nos currículos). E é preciso levar a comparação a sério em tudo o que ela implica, porque a mudança não é de canal, é de comportamento. Muda como os sistemas todos entregam valor. Muda como o viajante busca as informações iniciais de uma viagem e de um destino. Muda como compara tarifas, hotéis, voos e bairros. Muda até a análise entre alugar carro ou chamar Uber. Muda, portanto, a dinâmica do mercado inteiro. E deveria mudar a maneira como geramos valor como mercado e como participantes dele.
O mercado já viveu um ensaio geral disso, e vale relembrar o seu nome: open booking. Na década passada, o termo descrevia a reserva feita fora do canal preferencial, e o programa reagiu com um arsenal de captura: integrações de itinerário, parsing de e-mail, política de reembolso condicionada. A shadow AI é o open booking 2.0, com um agravante que muda a categoria do problema: a IA não é apenas mais um canal fora do preferencial, é um canal que raciocina fora da política.
Daí a pergunta que todo TM se fez nos corredores: como correr atrás dessa adoção? Correr atrás do viajante é disputar uma corrida já perdida, com o agravante de transformar o programa de viagens em polícia. O caminho pode ser outro: abraçar a IA não como ferramenta única e milagrosa, mas como parte de um conjunto, um ecossistema de ferramentas que apoia e evolui o ecossistema de viagens corporativas como um todo. O viajante que compara bairros no ChatGPT não é um infrator, pode ser um beta tester não remunerado do programa de viagens do futuro, ou quase isso.
BE WATER, POLÍTICA DE VIAGENS
Antecedência mínima, city cap, teto de diária: as regras que um dia fizeram sentido fazem sentido hoje? Pela primeira vez existe ferramenta para responder essa pergunta continuamente, e não a cada RFP.
A política de viagens em PDF deixou de ser um entregável do Travel Manager. Essa frase, que apresentei em São Paulo dois meses antes da convenção, voltou de Chicago validada. Mais do que o formato do arquivo, o que morreu foi a lógica: um conjunto de regras escrito uma vez por ano, aprovado em comitê e confrontado com a realidade apenas quando alguém reclama. As regras sobre antecedência mínima, city cap e teto por categoria realmente se sustentam quando confrontadas com o realizado do programa? Quantas empresas conseguem responder isso com número?
A IA pode dar agilidade e poder de análise para não apenas responder ao viajante, mas ajustar a regra: tornar a política e o programa de viagens dinâmicos, um conjunto de parâmetros que continua buscando controle e gestão, mas entende as nuances de um mercado em constante movimento.
No playbook do GBTA BTF São Paulo, isso virou desafio prático, executado ao vivo pela plateia: um agente revisor que confronta o que a política define com o histórico real do programa, realizado contra esperado, e aponta onde a regra promete e não entrega. "A antecedência mínima prometia economia, mas ela foi imperceptível" é o tipo de frase que nenhum comitê escreve e todo dado revela. Be water, política de viagens: a água toma a forma do copo, e a política deveria tomar a forma da operação, não o contrário.
Os números da semana mostram que o viajante talvez aceite essa transição melhor que o gestor: na pesquisa da Amadeus, 18% já confiam mais na IA do que em si mesmos para cumprir a política da empresa, e 66% deixariam a ferramenta remarcar sozinha um voo cancelado. O que ninguém aceita ainda é a zona cinzenta da responsabilidade: quando a reserva feita por IA dá errado, 38% culpam o assistente, mais do que a companhia aérea (30%) ou a agência (19%). O relatório da própria Amadeus chama isso de questão real de responsabilidade. Enquanto a resposta não vem em contrato, ela precisa vir em política: quem autoriza o agente, até que valor, com que trilha de auditoria. Política dinâmica não é política frouxa. É política que muda pelo dado, não pelo hábito.
- 38%
- culpam a IA
- 30%
- culpam a aérea
- 19%
- culpam a agência
A pergunta sem dono que todo contrato de 2027 vai precisar responder.
Fonte: Amadeus Tailored Horizons, 2026
“If AI is invisible, that’s a sign that they’ve got it right.”
“Se a IA é invisível, é sinal de que acertaram.”
O contexto
Só 31% dos buyers afirmam que sua TMC usa IA no atendimento; 31% dizem que não usa e 38% não sabem. No palco, a leitura que inverteu o constrangimento: IA bem implementada não aparece; aparece o serviço melhor.
O contraponto
A expo apostava no oposto: IA como selo, quanto mais visível melhor. Entre a IA invisível que funciona e a IA estampada que vende, a GBTA 2026 conviveu com as duas. Só uma sobrevive à renovação de contrato.
O PAPEL REVISITADO
A PROVA DE VALOR NÃO ESTÁ NA VIAGEM EM SI
Está na orquestração do ecossistema inteiro: viajantes, ferramentas, fornecedores, stakeholders, orçamento e um ROI que precisa significar mais do que economia. O Travel Manager tem seu papel desafiado e revisitado.
Essa avalanche de novidades provoca o pensamento de revisitação do valor que o Travel Manager pode gerar para as organizações. O CFO quer saber por que o programa custa o que custa. O C-level quer saber o que a área entrega além de passagem mais barata. E a resposta que funcionava há dez anos, "economia em viagens", encolheu: economia virou commodity, qualquer ferramenta promete. A prova de valor migrou da viagem em si para a orquestração de todo o ecossistema: viajantes, ferramentas, fornecedores, stakeholders (CFOs e C-levels na cabeceira da mesa), orçamento e ROI atrelados ao negócio, não à tarifa ou à economia (savings).
A pesquisa da GBTA quantificou o caos que qualquer gestor global conhece: em média, 5,3 instâncias de OBT e 5,3 de expense por programa multinacional. Cinco ambientes, cinco fontes de dado que não conversam. Nenhuma IA orquestra o que está fragmentado desse jeito, e nenhum maestro rege cinco orquestras tocando partituras diferentes. Antes do agente, o inventário; antes da automação, a arrumação. É a versão corporativa do "garbage in, garbage out" dos 30 sistemas que Vinicius Gonçalves, da TourHouse, trouxe de uma sessão.
A fragmentação que nenhum agente resolve sozinho.
Fonte: pesquisa GBTA, 2026
Como buscar esse novo papel em tecnologia e IA? A resposta que defendi em São Paulo, e que Chicago reforçou, tem três camadas. Primeiro, aumento real de capacidade analítica: o TM que não lê dado terceiriza as decisões para quem lê. Segundo, mudança de postura: transformar o programa de viagens num norte de geração de valor, e não num conjunto de regras duras a serem seguidas; a régua deixa de ser "quantas exceções bloqueei" e passa a ser "quanto valor o programa gerou para o negócio". Terceiro, IA acoplada à rotina, não como projeto especial com comitê e verba própria.
Fica a provocação, e ela é individual, não institucional: olhe para as suas skills, para o seu conjunto de ferramentas e para o seu papel na empresa, e pergunte com honestidade como absorver essa avalanche. Sim, avalanche. Não é exagero para o volume de mudança que este paper documenta em cada página, e avalanche não se administra do jeito que se administra uma brisa: exige revisitar o papel, não apenas defendê-lo. O profissional que fizer esse inventário agora escolhe o que muda; o que adiar vai receber a mudança pronta, escolhida por outros.
“Analise as suas skills, entenda melhor como novas ferramentas podem apoiar na revisitação de seu papel e como gera valor.”
A sessão "Brains + Bots" deu nome de framework ao mesmo movimento: AI Readiness, Intelligence & Governance e Human Boundaries, os três pilares do travel buyer reimaginado. O terceiro pilar é o que sustenta os outros dois: identificar onde o julgamento humano é indispensável, e a fronteira que nenhum painelista da convenção contestou é que gestão de crise não se delega a agente. O modelo que está de pé em todos os produtos e em todos os frameworks é o mesmo, e o resumi na Bússola do Travel Leaders Hub deste mês: o agente sugere, a pessoa decide.
| Pilar | O que exige |
|---|---|
| AI Readiness | Proteger dados e engajar fornecedores com segurança |
| Intelligence & Governance | Governança e lições aprendidas antes do primeiro projeto |
| Human Boundaries | Onde o julgamento humano é indispensável |
Fonte: sessão "Brains + Bots: Designing Travel Strategy in the Era of Agentic AI", GBTA 2026 (Richelle DeGuzman-Smith, GoldSpring; Suzanne Boyan, ZS; Gee Mann, Travlr ID)
TRAVEL MANAGER 2.0: DO PAPEL AO PROJETO
Em São Paulo, a plateia executou os exercícios ao vivo, de celular na mão. Em Chicago, grandes corporações mostraram a mesma lógica aplicada ao instrumento mais tradicional da profissão: o RFP.
O playbook "Do Hype ao Hands-On", que nasceu da palestra no GBTA Business Travel Forum São Paulo, parte de uma premissa: ninguém aprende IA assistindo palestra sobre IA. Os cinco desafios foram rodados ao vivo, com a plateia fotografando prompts do telão e executando na própria ferramenta. O segundo desafio pedia exatamente o que Chicago confirmaria dois meses depois: agir como Travel Manager 2.0, gerar KPIs que complementem os clássicos de CFO, Compras e Compliance, e desenhar um plano para o próprio profissional evoluir seu conjunto de papéis. O quinto levava o exercício ao projeto real: um plano de quatro sprints unindo IA, conhecimento do gestor e a API do parceiro. A distância entre o TM que administra regras e o que constrói soluções nunca foi tão pequena, nem tão decisiva.
Na sessão sobre avaliação de OBTs e alternativas ao RFP, Matt McClellan, Global Travel & Fleet Leader da GE Aerospace, descreveu o abandono do RFP clássico para contratar tecnologia: a empresa roda dois pilotos pagos em paralelo, com cerca de mil viajantes reais cada, e decide com dado de produção, não com resposta de formulário. Rosemary Maloney, Senior Director de Corporate Travel da Freeman Company e presidente da GBTA, manteve o RFP, mas antecipou o discovery e precificou SLAs. Dois caminhos, uma premissa comum: ferramenta de IA não se avalia por promessa escrita. Promessa escrita, aliás, é o que o RFP tradicional mais produz: quem responde melhor ao formulário raramente é quem opera melhor o produto.
| Mais ou menos | 42% |
|---|---|
| É ruim | 26% |
| É decente | 22% |
| É ótima | 6% |
| Não sei dizer | 4% |
68% avaliam como mediana ou pior. Só 6% acham ótima.
Fonte: enquete ao vivo (Slido), sessão sobre conteúdo hoteleiro, GBTA 2026 · n=77
O fio que costura São Paulo e Chicago é o mesmo: o profissional que executa de ponta a ponta, com IA no fluxo, ganhou um poder que a estrutura tradicional não dá. O conceito tem nome no mercado, High-Impact Contributor: quem entrega um projeto de valor inteiro, sozinho, com IA, sem depender de equipe ou headcount para gerar impacto. Para o Travel Manager, é menos uma ameaça e mais um convite: impacto e relevância passam a valer mais que cargo e tamanho de time.
MENOS APRENDER, MAIS CONECTAR
ESCASSEZ GERA CRIATIVIDADE E A IA DIMINUIU O GAP
Durante décadas, tecnologia, processos e boas práticas nasciam no mercado americano e o Brasil consumia como novidade. Os executivos brasileiros ouvidos voltaram de Chicago com outro diagnóstico.
Historicamente, havia uma distância grande entre o mercado americano e o brasileiro. Tecnologia, processos, ferramentas e boas práticas nasciam e se desenvolviam lá; nós consumíamos como novidade. Entendia-se que aquilo era o melhor que existia, e visitávamos as GBTAs como a meca da novidade. A edição 2026 enterrou esse roteiro. A viagem ficou menos sobre aprender e mais sobre conectar, discutir e compreender um modo de fazer. Carolina Gaete, da Voetur, que frequenta a convenção há 18 anos, resume o arco: houve um tempo em que falar de OBT era distante; hoje "estamos muito próximos, e o Brasil tem o que ensinar". Aline Bueno, CEO da Argo Solutions, com mais de 15 GBTAs no currículo, diz que passou 13 delas se perguntando quando aquilo chegaria ao Brasil, e que este ano viu a distância "diminuir muito". Manuela Bernardes, da Flytour, foi mais longe: "não estamos atrás em nada".
Há inclusive cenários em que estamos mais evoluídos, por necessidade. Pagamentos é o exemplo mais nítido, e não se trata só do PIX: VCN incorporado à transação, conciliação automática, camadas antifraude que o mercado americano começa a discutir agora, enquanto a Conferma lançava na própria convenção o primeiro benchmark global de performance de cartão virtual.
Até a Brex, expondo na GBTA, conta essa história: não dá para dizer que foi criada no Brasil, mas a criatividade brasileira está na foundation do produto e ninguém tira. O Pagar.me nasceu para resolver problemas complexos do nosso mercado; exportamos um pedaço dessa complexidade em forma de competência nos founders. Sem síndrome de vira-lata: aqui é orgulho mesmo.
O Brasil, por suas complexidades, não só pôde aprender durante todos esses anos: agora teve de poder ensinar. Em pagamentos, como os executivos entrevistados apontaram, a dor era grande no nosso mercado; a pressa, também. Estávamos mais ancorados na escassez de recursos e de tecnologia do que os americanos, e justamente por isso os tínhamos como grande referência. Ainda são, em verticais e assuntos específicos. Mas a IA mudou uma variável estrutural do jogo: pela primeira vez, a tecnologia de ponta está disponível na mesma régua e pelo mesmo preço para todos os mercados. E quando a ferramenta é a mesma, o que diferencia é o repertório de quem a usa. Talvez mercados acostumados à escassez se virem melhor. A criatividade é mais aguçada nos cenários em que há menos recurso do que o necessário. O tal do "te vira", que sempre foi diagnóstico, virou vantagem competitiva.

“Com a IA na mesma régua e pelo mesmo preço para todos, talvez os mercados acostumados à escassez se virem melhor.”
O orgulho não dispensa a honestidade, e o contraponto veio dos próprios entrevistados. Em maturidade estratégica, o jogo se inverte: nos EUA, quem cuida da categoria tem assento executivo; no Brasil, travel ainda é linha de custo na maior parte das empresas. Em governança de IA, Carolina Gaete viu por lá políticas e produtos prontos que ainda faltam por aqui. E existe um gap que não é técnico, é cultural: executivos brasileiros ainda ouvem "não conheço esse mercado" nos stands. O déficit do Brasil na GBTA não é de repertório, é de reconhecimento, e reconhecimento se constrói aparecendo. O dado oficial ajuda a construir: Brasil crescendo 13,8%, o maior ritmo entre os 15 maiores mercados do mundo, num ano em que o gasto global alcança US$ 1,71 trilhão.
- 13,8%
- crescimento do Brasil, o maior do top 15
- 10º
- maior mercado do mundo
- US$ 1,71 tri
- gasto global em 2026
Fonte: BTI 2026, GBTA
TODOS NA MESMA FASE DO JOGO
Se uma frase resume a GBTA 2026, é esta: todos estão na mesma fase do jogo. O travel manager americano e o brasileiro dividem praticamente as mesmas dúvidas de governança. O fornecedor global e a travel tech local correm o mesmo ciclo curto. Talvez uns estejam mais descolados, as travel techs à frente, justamente pela pressão de entrega que o mercado impõe a quem vive de produto. Mas ninguém tem o mapa pronto, e quem diz que tem está vendendo stand.
A segunda conclusão é sobre o papel de quem gerencia: evoluído, não substituído. Nunca foi uma competição entre IA e política de viagens, tampouco um confronto entre IA e Travel Manager. A IA entra acoplada à rotina, parte do trabalho, exatamente como o pacote Office entrou há três décadas: sem cerimônia e sem volta. A pergunta de admissão mudou de "sabe Excel?" para "sabe orquestrar agentes?", e a janela para aprender está aberta agora, enquanto usar IA ainda é barato e o erro ainda é permitido.
Leia também · A Bússola
A tese do novo jeito de produzir, que atravessa este paper, é desenvolvida em profundidade na Bússola do Travel Leaders Hub de agosto: "Do Trabalhar ao Produzir", por Alexandre Cordeiro.
Leia a íntegra na PanrotasCRÉDITOS E FONTES
Leia a cobertura completa no hub
Fontes citadas
- GBTA (BTI 2026; pesquisa Innovation and the "Perfect Trip")
- Amadeus (Tailored Horizons, com Mercury Analytics)
- SAP Concur (pesquisa Wakefield Research, 21 mercados)
- Travelport (Traveler Confidence Survey)
- The Product Compass
- Press releases distribuídos na GBTA 2026 por FCM, Accelya, Direct Travel, Emburse, Conferma, Cerebri AI, Oversee, TripGain, Lyft, NLA, Preferred Hotels, Radisson, SilverDoor
- Entrevistas exclusivas ao Travel Tech Hub
- Palestra TTH no GBTA BTF São Paulo 2026
Quem foi ouvido em Chicago
- Alexandre MottaSócio Diretor · Conex Travel
- Bruna HeusiDiretora Geral · TripService
- Luana NogueiraDiretora Executiva · ALAGEV
- Carolina GaeteDiretora Comercial e Parcerias Globais · Voetur Viagens
- Gian TerhochCEO · TourHouse
- Aline BuenoCEO · Argo Solutions
- Manuela BernardesDiretora Executiva · Flytour Business Travel e Flytour Eventos
Entrevistas concedidas ao Travel Tech Hub durante a GBTA Convention 2026, em Chicago. Falas editadas para concisão, com sentido preservado. Fotos: Travel Tech Hub.
GBTA 2026 Tech Paper · Travel Tech Hub · traveltechhub.com.br · Editoria de Viagens Corporativas
DO HYPE AO HANDS-ON: O PLAYBOOK DE SÃO PAULO
Os exercícios citados ao longo deste paper nasceram da palestra no GBTA Business Travel Forum São Paulo, em junho, e viraram um playbook aberto. Se você quer rodar o que está descrito aqui, o material está inteiro lá.
O agente revisor, em 3 passos
- 1Alimente a IA com a política atual e peça crítica isenta: 5 melhorias e 5 formas modernas de entregar experiência sem perder controle.
- 2Confronte regra x histórico realizado.
- 3Transforme os achados em agenda evolutiva com stakeholders.
O que tem no playbook
- 5 desafios rodados ao vivo
- 20 prompts
- 10 skills e GPTs
- 5 agentes configuráveis
- Glossário de 50 termos

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