Sebrae destina R$ 4 milhões para estruturar turismo e economia local no Vale do Catimbau, PE
Projeto prevê capacitação, apoio a empreendedores, valorização do patrimônio e fortalecimento do turismo de base comunitária no território pernambucano

O Vale do Catimbau, em Pernambuco, é o protagonista de um projeto do Sebrae Nacional e do Sebrae Pernambuco que prevê R$ 4 milhões em investimentos para fortalecer a atividade turística e a economia local. A iniciativa, com ações previstas até o final de 2027, busca transformar o potencial natural, cultural e arqueológico do território em oportunidades para empreendedores e comunidades que já atuam na região.
Localizado entre o Sertão e o Agreste pernambucano, a aproximadamente 300 quilômetros do Recife, o Vale reúne cânions, cavernas, mirantes, sítios arqueológicos, pinturas rupestres e manifestações culturais. O território abriga o Parque Nacional do Catimbau e possui 17 trilhas catalogadas, além de um patrimônio histórico que ajuda a posicionar a região entre os destinos de ecoturismo do Estado.
O projeto do Sebrae reúne ações de qualificação profissional, consultorias especializadas, apoio aos empreendedores, capacitação em gastronomia e articulação entre diferentes instituições. A proposta é fortalecer a cadeia turística sem desconsiderar os moradores e negócios que já fazem parte da dinâmica econômica do território.
“A gente não inventa. A gente dá oportunidade para essas histórias serem conhecidas. E você começa a criar uma outra dinâmica de integração”, resume Gerlane Melo, analista do Sebrae Pernambuco, na Unidade Agreste, com atuação nas áreas de Turismo e Economia Criativa.
Buíque é uma das principais portas de entrada para quem visita o Vale do Catimbau e já começa a perceber os efeitos do aumento do interesse turístico pela região. Novas hospedagens e serviços de receptivo vêm surgindo no município, acompanhando a chegada de visitantes interessados tanto nas paisagens naturais quanto no patrimônio arqueológico.
Para o Sebrae, entretanto, o crescimento do fluxo precisa estar associado à geração de oportunidades para quem vive no território.
“Hoje, estamos com um novo projeto, em parceria com o Sebrae Nacional, no qual vamos trabalhar durante dois anos com um aporte financeiro bastante expressivo para atuar efetivamente no território do Vale do Catimbau. Nós já acompanhamos e apoiamos a Aconturc (Associação dos Condutores de Turismo do Parque Nacional do Catimbau) e também trouxemos alguns parceiros para conhecer a região”, disse Gerlane.
Segundo a analista, a atuação de moradores e empreendedores locais é parte fundamental da construção do destino.
“Eu digo muito que o Vale do Catimbau tem toda essa beleza, mas, se não fossem essas pessoas que começaram esse trabalho há 20 anos, não teríamos o Vale do Catimbau como ele é hoje. São pessoas da cidade e da região que abraçaram a causa e lutam pelo Vale do Catimbau”, completou.
Artesanato conectado ao turismo

Além dos atrativos naturais e arqueológicos, o artesanato aparece como outro eixo de desenvolvimento turístico. É nesse contexto que o Sebrae aposta na Rota Mãos do Agreste, circuito que conecta três importantes territórios da produção artesanal pernambucana: Alto do Moura, em Caruaru; Garanhuns; e Buíque, no Vale do Catimbau.
A proposta surgiu a partir da identificação de uma demanda por maior valorização e integração da produção artesanal dessas regiões. No Vale do Catimbau, um diagnóstico realizado pelo Sebrae em 2022 identificou mais de 16 ateliês de artesãos espalhados pelo território, muitos deles funcionando nas próprias residências dos produtores.
“Quando pensamos em fazer a Rota Mãos do Agreste, do barro à madeira, veio toda uma história da repercussão do artesanato local, principalmente do Vale do Catimbau e de Garanhuns. Caruaru já tem uma representatividade muito forte por meio do Alto do Moura, que é conhecido nacional e internacionalmente. Então pensamos: temos Caruaru com essa representatividade, mas o que temos no entorno?”, explicou Gerlane Melo.
A iniciativa também busca conectar a produção local a visitantes de outros mercados. A rota conta com materiais em português, inglês e espanhol, ampliando a possibilidade de divulgação internacional dos artesãos e de suas produções.
“Você está dentro de um parque onde vê todas aquelas belezas naturais e, ao mesmo tempo, encontra a arte inserida naquele território. A experiência é única. É como levar um pedaço de tudo o que você viveu”, destaca Gerlane.
“E o turista que chega ao Vale interessado na Rota do Artesanato pode, sim, fazer um tour específico. Criamos, além do folder, uma publicação em português, inglês e espanhol, porque já estamos olhando também para o mercado internacional”, incluiu.
Arqueologia como ativo turístico

Com aproximadamente 62 mil hectares, o território do Vale do Catimbau também se destaca pelo patrimônio arqueológico. A região é considerada o segundo maior sítio arqueológico do Brasil, atrás da Serra da Capivara, no Piauí.
Pesquisas realizadas entre 1996 e 1998 pela arqueóloga Ana Lucia do Nascimento Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco, contribuíram para ampliar o conhecimento sobre o patrimônio arqueológico local.
Entre os atrativos estão pinturas e gravuras rupestres com milhares de anos de história. No Sítio Arqueológico do Alcobaça, por exemplo, pinturas ocupam um paredão rochoso de aproximadamente 200 metros quadrados.
A combinação entre natureza e patrimônio histórico cria possibilidades para ampliar o tempo de permanência dos visitantes e diversificar as experiências oferecidas no destino.
Turismo de base comunitária
Outro eixo do projeto é a valorização de comunidades indígenas e quilombolas que fazem parte da história do território. O Vale do Catimbau abriga indígenas Kapinawá e comunidades quilombolas, que também estão inseridos nas ações de fortalecimento cultural, econômico e turístico.

Nesse modelo de turismo de base comunitária, os visitantes têm contato direto com tradições, manifestações culturais, gastronomia e histórias transmitidas entre gerações.
Na aldeia Kapinawá, por exemplo, uma das experiências envolve a participação dos visitantes no toré, dança circular ancestral presente nos rituais sagrados da comunidade. Já na comunidade quilombola Mundo Novo, as atividades incluem gastronomia ancestral, histórias, cantos e apresentações de samba de coco.
A estratégia, nesse caso, vai além da criação de novos atrativos turísticos: busca fazer com que a atividade gere renda e visibilidade para as próprias comunidades.
Para Gerlane, o desafio é justamente estruturar o turismo a partir dos recursos e histórias que já existem no território.
“É isso: valorizar o que temos, sem inventar a roda. A gente não inventa. A gente dá oportunidade para essas histórias serem conhecidas. E você começa a criar uma outra dinâmica de integração.”



