Se você tem 1:1s, se interessa por gestão de pessoas ou já parou para pensar nos impactos da IA no seu trabalho, provavelmente esbarrou no conceito de carreira em T.
Carreira em T descreve um perfil profissional com duas dimensões. A haste vertical representa a profundidade, a especialidade em que você é referência e entrega com consistência. A barra horizontal representa a amplitude, a capacidade de transitar por outras áreas, colaborar com quem tem outra formação e conectar disciplinas. O gráfico abaixo mostra essa estrutura.
O mercado mapeia esse perfil há décadas. A ideia aparece em processos de recrutamento de consultorias nos anos 1980 e ganhou força com o artigo de Morten Hansen e Bolko von Oetinger na Harvard Business Review, em 2001, sobre gestores que entregam o resultado da própria área e compartilham conhecimento com o resto da empresa.
O interesse tem uma razão clara. Além da profundidade técnica na vertical, esse profissional consegue navegar por outras áreas e contribuir mesmo sem ser especialista nelas. É um especialista com um pouco de generalista: entende o suficiente do vizinho para destravar um projeto e sabe o bastante da própria área para ser referência nela.
Com a IA, as duas dimensões do T começam a se mover, e em direções diferentes. É um movimento que merece ser olhado com cuidado.
Na vertical, parte da especialidade perde valor
Os especialistas estão sendo impactados justamente naquilo em que são especialistas. Pense num profissional de marketing que é ótimo redator, produz bons criativos e pensa campanhas. As primeiras versões desses materiais agora surgem muito mais rápido com IA, e com qualidade razoável. Em tecnologia, programadores e times de produto vivem o mesmo: documentação básica de requisitos, user stories, frameworks de priorização e primeiras versões de código passam a ser entregues por IA. No turismo, a cotação inicial, o roteiro-base e a resposta padrão de atendimento seguem o mesmo caminho.
O direito é um bom termômetro. No início de outubro, a OAB SP ajuizou uma ação civil pública contra a Enter, plataforma de IA que lê processos, define estratégias e produz minutas de contestações e outras peças para departamentos jurídicos de grandes litigantes. A entidade pede supervisão humana efetiva e auditável por advogados em todas as etapas e a suspensão de publicidade que apresente o produto como substituto do advogado. Seja qual for o desfecho, a reação mostra o ponto: entregas que eram exclusivas de especialistas começam a ser feitas por IA, e parte do valor do trabalho desses profissionais vai junto.
Vale o recorte. A perda se concentra na base da especialidade, nas primeiras versões e no volume. Um estudo com mais de 5 mil atendentes mostrou que quem mais ganhou produtividade com IA foram os iniciantes, enquanto os mais experientes ganharam pouco. O topo da haste, onde ficam julgamento, contexto e responsabilidade pelo resultado, segue valorizado.
Na horizontal, a IA potencializa
Na barra horizontal, o movimento é de ganho. O profissional que já era um pouco generalista agora consegue ir muito mais fundo nas áreas por onde transita. Antes, a horizontal servia para entender o vizinho e colaborar. Com IA, ela passa a incluir execução. O desenvolvedor faz o protótipo de design. O marketing monta o site. O financeiro constrói os próprios dashboards.
Quem já tinha essa horizontalidade potencializa ainda mais e talvez fique um pouco mais vertical nas áreas vizinhas. Quem não tinha começa a ter. O curioso enxerido, como eu brinco que sou, ganha muito mais capacidade. Uma pesquisa com profissionais da P&G mostrou esse efeito: sem IA, quem vinha de P&D propunha soluções técnicas e quem vinha do comercial propunha soluções comerciais. Com IA, os dois grupos passaram a entregar propostas mais equilibradas.
O cuidado aqui é com a revisão. Ir mais fundo numa área vizinha pede o olhar de quem domina aquela área, porque a IA costuma errar com confiança justamente onde quem usa tem menos repertório.
Mapear a perda de valor e se potencializar com intencionalidade
Na minha visão, a nova carreira em T pede dois movimentos.
O primeiro é mapear o que perde valor na sua entrega e identificar o que fica com você e o que pode ir para a IA. Depois, começar a usar a IA para substituir essas partes, mantendo a gestão das tarefas e a responsabilidade pelo resultado.
O segundo é se potencializar com intencionalidade. O tempo liberado precisa ir para onde você ainda não gerava valor, principalmente na horizontal, explorando as áreas vizinhas que a IA colocou ao seu alcance. Quem faz essas escolhas de forma deliberada decide o que manter. Quem espera acaba deixando o mercado decidir.
E o design organizacional?
Se o especialista agora pode ser mais generalista, ele também passa a entrar na área do outro, seja para executar, para complementar ou para gerar a primeira versão. O marketing entrega o site que antes dependia de tecnologia. O produto chega à reunião com o protótipo pronto. O financeiro deixa de esperar pelo relatório do time de dados.
Como ficam as conversas entre áreas, as hierarquias, as trocas, as linhas de reporte e a própria colaboração quando as fronteiras entre funções ficam mais fluidas? Organogramas e cargos foram desenhados para profissionais com a especialidade protegida e a barra curta. O design organizacional também precisa acompanhar a evolução do profissional, com o que ele perde e o que ganha de valor.
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