Travel Tech Hub

A carreira em T, agora potencializada por IA

Com a IA, parte da especialidade perde valor e a amplitude ganha capacidade de execução. Veja como mapear o que fica com você e o que vai para a IA.

Alexandre Cordeiro··5 min de leitura
A carreira em T, agora potencializada por IA
A carreira em T, agora potencializada por IA

Se você tem 1:1s, se interessa por gestão de pessoas ou já parou para pensar nos impactos da IA no seu trabalho, provavelmente esbarrou no conceito de carreira em T.

Carreira em T descreve um perfil profissional com duas dimensões. A haste vertical representa a profundidade, a especialidade em que você é referência e entrega com consistência. A barra horizontal representa a amplitude, a capacidade de transitar por outras áreas, colaborar com quem tem outra formação e conectar disciplinas. O gráfico abaixo mostra essa estrutura.

Carreira em T

O mercado mapeia esse perfil há décadas. A ideia aparece em processos de recrutamento de consultorias nos anos 1980 e ganhou força com o artigo de Morten Hansen e Bolko von Oetinger na Harvard Business Review, em 2001, sobre gestores que entregam o resultado da própria área e compartilham conhecimento com o resto da empresa.

O interesse tem uma razão clara. Além da profundidade técnica na vertical, esse profissional consegue navegar por outras áreas e contribuir mesmo sem ser especialista nelas. É um especialista com um pouco de generalista: entende o suficiente do vizinho para destravar um projeto e sabe o bastante da própria área para ser referência nela.

Com a IA, as duas dimensões do T começam a se mover, e em direções diferentes. É um movimento que merece ser olhado com cuidado.

Carreira em T com IA

Na vertical, parte da especialidade perde valor

Os especialistas estão sendo impactados justamente naquilo em que são especialistas. Pense num profissional de marketing que é ótimo redator, produz bons criativos e pensa campanhas. As primeiras versões desses materiais agora surgem muito mais rápido com IA, e com qualidade razoável. Em tecnologia, programadores e times de produto vivem o mesmo: documentação básica de requisitos, user stories, frameworks de priorização e primeiras versões de código passam a ser entregues por IA. No turismo, a cotação inicial, o roteiro-base e a resposta padrão de atendimento seguem o mesmo caminho.

O direito é um bom termômetro. No início de outubro, a OAB SP ajuizou uma ação civil pública contra a Enter, plataforma de IA que lê processos, define estratégias e produz minutas de contestações e outras peças para departamentos jurídicos de grandes litigantes. A entidade pede supervisão humana efetiva e auditável por advogados em todas as etapas e a suspensão de publicidade que apresente o produto como substituto do advogado. Seja qual for o desfecho, a reação mostra o ponto: entregas que eram exclusivas de especialistas começam a ser feitas por IA, e parte do valor do trabalho desses profissionais vai junto.

Vale o recorte. A perda se concentra na base da especialidade, nas primeiras versões e no volume. Um estudo com mais de 5 mil atendentes mostrou que quem mais ganhou produtividade com IA foram os iniciantes, enquanto os mais experientes ganharam pouco. O topo da haste, onde ficam julgamento, contexto e responsabilidade pelo resultado, segue valorizado.

Na horizontal, a IA potencializa

Na barra horizontal, o movimento é de ganho. O profissional que já era um pouco generalista agora consegue ir muito mais fundo nas áreas por onde transita. Antes, a horizontal servia para entender o vizinho e colaborar. Com IA, ela passa a incluir execução. O desenvolvedor faz o protótipo de design. O marketing monta o site. O financeiro constrói os próprios dashboards.

Quem já tinha essa horizontalidade potencializa ainda mais e talvez fique um pouco mais vertical nas áreas vizinhas. Quem não tinha começa a ter. O curioso enxerido, como eu brinco que sou, ganha muito mais capacidade. Uma pesquisa com profissionais da P&G mostrou esse efeito: sem IA, quem vinha de P&D propunha soluções técnicas e quem vinha do comercial propunha soluções comerciais. Com IA, os dois grupos passaram a entregar propostas mais equilibradas.

O cuidado aqui é com a revisão. Ir mais fundo numa área vizinha pede o olhar de quem domina aquela área, porque a IA costuma errar com confiança justamente onde quem usa tem menos repertório.

Mapear a perda de valor e se potencializar com intencionalidade

Na minha visão, a nova carreira em T pede dois movimentos.

O primeiro é mapear o que perde valor na sua entrega e identificar o que fica com você e o que pode ir para a IA. Depois, começar a usar a IA para substituir essas partes, mantendo a gestão das tarefas e a responsabilidade pelo resultado.

O segundo é se potencializar com intencionalidade. O tempo liberado precisa ir para onde você ainda não gerava valor, principalmente na horizontal, explorando as áreas vizinhas que a IA colocou ao seu alcance. Quem faz essas escolhas de forma deliberada decide o que manter. Quem espera acaba deixando o mercado decidir.

E o design organizacional?

Se o especialista agora pode ser mais generalista, ele também passa a entrar na área do outro, seja para executar, para complementar ou para gerar a primeira versão. O marketing entrega o site que antes dependia de tecnologia. O produto chega à reunião com o protótipo pronto. O financeiro deixa de esperar pelo relatório do time de dados.

Como ficam as conversas entre áreas, as hierarquias, as trocas, as linhas de reporte e a própria colaboração quando as fronteiras entre funções ficam mais fluidas? Organogramas e cargos foram desenhados para profissionais com a especialidade protegida e a barra curta. O design organizacional também precisa acompanhar a evolução do profissional, com o que ele perde e o que ganha de valor.

Compartilhe
Continue explorando

A rede TTH além desta matéria